sexta-feira, setembro 04, 2009

Surdo, mudo e vivo

Se tem algo muito estranho acontecendo por aí, é a atenção dispensada com os surdos e mudos. Qualquer político de beira de esquina se utiliza de um "dublador" para esse público no cantinho da tela, normalmente dentro de um quadrado ou um círculo minúsculo, como se o fato da pessoa já ter uma ou outra deficiência impedisse que ele fosse, também, míope.

Nas igrejas então, nem se fala. Eu sempre imaginei que aquela moça de cabelos longos e roupas comportadas estivesse acompanhando a pregação de um estúdio externo à igreja ou coisa parecida, mas não. Ela está alí, também meio escondidinha, no cantinho do altar, espantando mosquitos, falando na linguagem de sinais e abanando o povo.

Hoje pela manhã, pude entender melhor as dificuldades dessa parte da população. Uma delas, sem dúvida, é a impossibilidade de se viajar para o exterior. Pois, diga-me, como os mudos vão se comunicar em inglês, por exemplo, com outras pessoas, apenas por sinais? Ok, ele pode procurar um ponto de atendimento ou serviço de referência a um centro especializado, mas como se ensina inglês um mudo a falar inglês? E se for um surdo-mudo?

Digo isso porque um casal surdo-mudo "conversava" com empolgação no ônibus que peguei, lotado como sempre. E como não podia deixar de ser, a mulher falava muito mais que o homem. Deu para imaginar a relação dos dois pela reação do cara a tudo que seu par dizia: ele apenas concordava com a cabeça, fazia alguns sinais que soavam como "é verdade, né?" e, por vezes, virava a cabeça para o outro lado, o que fazia com que sua companheira se calasse - já que ele não estava mais vendo os sinais. Achei isso genial, quase deu vontade de ser surdo-mudo, mas, deixa pra lá. Quase, porque sempre que ele fazia isso, era chamado a atenção pela garota com tapinhas incessantes no ombro, daqueles que irritam, mesmo.

Pior que a trovadora também devia ter um preparo físico invejável. Note, que eu disse que o ônibus estava lotado, era cedo e o trânsito estava parado e irritante. Mesmo assim, ela encontrava espaço e disposição para mover os braços como Michael Phelps, às vezes até batendo palmas. Mas não parava por aí, literalmente. Ela também movia os músculos do rosto - todos - e da boca com expressões dignas de Jim Carrey.

O coitado do parceiro da cronista estava tão atordoado que, em alguns momentos, passava a mão no rosto com aflição, como se imaginasse uma forma de calar a matraca. E seu desejo se tornou realidade: uma senhora, no auge de sua gentileza, passou pelo corredor lotado do ônibus empurrando a todos, inclusive, o casal, que estava próximo aos degraus da porta. Com o pretexto de evitar a queda de sua amada, o mudinho malandrão passou a garota para sua frente, abraçando-a por trás, e segurando os braços da regente de Mozart.

Ou seja: quando quiser calar sua namorada, abrace-a por trás, e finja ainda estar prestando atenção a tudo que ela diz.

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1 Comentários:

Às 9 de setembro de 2009 14:08 , Anonymous bejota disse...

xiiiii jão, falando sozinho? essa era da boa hein, põe dessa pa' mim!
xxxxxx

 

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